Anos 70 … sem abrigo? Pedinte? Pobre? Não me lembro o que se chamava aos menos afortunados na vida, a lembrança que tenho é de um senhor baixinho, vestido de escuro, que “ocupou” uma vivenda desabitada, mesmo em frente à casa dos meus pais, e que fazia parte de uma quinta, como muitas no pós 25 Abril que foram expropriadas e deitadas abaixo para construir prédios. Casa sem água, sem luz, lembro-me de ver um foco de luz à noite, lanterna? Candeeiro de petróleo? Só sei que batia à porta e pedia água à minha mãe, que lha dava num balde… e num jarro de vidro, esta certamente para beber, lembro-me bem sempre que olho para o jarro, que agora me pertence … não me lembro de mais nada, certamente os outros vizinhos também o ajudavam … gostava que assim tivesse sido…Assim como apareceu, desapareceu … Mais tarde, casa ocupada por um casal de etnia cigana, tendeiros na feira, com filhos e uma filha surda que brincava comigo, também apareceram e desapareceram, tempos em que os ciganos ainda viviam em tendas pelas serras e descampados. Todas as segundas feiras, um senhor de chapéu tocava à campainha, ia buscar a “esmola” semanal de vinte cinco tostões? dois escudos e cinquenta? Lembro-me que era uma moeda. Também como apareceu, desapareceu … Mais tarde, quando fui estudar para Lisboa, pedintes no comboio e no metro, cegos com a caixinha pendurada ao pescoço a tocar concertina ou na porta de entrada das estações e o mais horrível de todos, os que tinham um cãozinho com o cestinho na boca para a moeda … só de pensar no que aqueles pobres bichinhos sofriam…Mas todos pediam para “matar” a fome … Quero pensar assim… Agora, que já fiz voluntariado … Não sei …
Nóemia Tomé
61
anos Fevereiro 2023
Universidade Sénior de Massamá e Monte Abrãao
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