Como cheguei à insólita situação de sem-abrigo, tendo uma vida
boa,
acima das expectativas, com dinheiro para extravagâncias e mulher bem-parecida, apesar dos três filhos que me deu?
A bem da verdade, eu
queria uns oito, tinha dinheiro para pagar a quem deles cuidasse e como única preocupação
manter o trabalho de engenheiro paisagista que me desse sustento e notoriedade.
Fui durante um longo período, o recluso número cinquenta e dois, sem outro préstimo que o de receber as visitas espaçadas da minha mulher, que me pediu o divórcio, mal soube das fraudes que pratiquei na empresa.
Também ela com culpa formada por lhe querer satisfazer todas as
exigências.
Será que nunca questionou donde vinha o dinheiro para as suas despesas mais supérfluas e desproporcionais? Depois os desfalques tornaram-se em espiral irreversível, cada vez mais difíceis de encobrir, cheguei a pensar em suicídio ou desaparecer do País sem deixar rasto. Vários acontecimentos precipitaram a recente prisão domiciliária a que fiquei sujeito após dois anos de encarceramento na cadeia, o principal teve a ver com a fuga mal planeada, doutro modo não teria sido apanhado em flagrante no aeroporto com viagem para o Dubai. Não fui o único arguido no processo, aliás vim a descobrir que dos órgãos de direção era eu quem menos prejudicara a empresa.
A diferente rotina diária a que era sujeito punha-me numa situação desconfortável por estar divorciado e ter que partilhar o espaço com a mãe dos meus filhos. Foi assim até a pena ser comutada e deixar a casa para tornar-me num sem-abrigo. Quem me quiser ver, porque me sinto invisível, encontra-me a arrumar carros num parque de estacionamento sem o apoio da família, amigos ou sequer perspetivas de futuro. Estou em crer que as adversidades por que passo me darão vida curta que só tolero porque não tenho coragem de me matar. Talvez um dia o destino me dê essa benesse!
Universidade sénior de Massamá
Fevereiro de 2023-02-27
Aula de Português
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