sábado, 4 de março de 2023

2 POEMAS DE SEBASTIÃO DA GAMA

 

Pequeno Poema

Quando eu nasci, 
ficou tudo como estava. 
Nem homens cortaram veias, 
nem o Sol escureceu, 
nem houve estrelas a mais... 
Somente, 
esquecida das dores, 
a minha Mãe sorriu e agradeceu. 
Quando eu nasci, 
não houve nada de novo 
senão eu. 

As nuvens não se espantaram, 
não enlouqueceu ninguém... 
P’ra que o dia fosse enorme, 
bastava 
toda a ternura que olhava 
nos olhos de minha Mãe... 

Sebastião da Gama, in 'Antologia Poética' 

Poesia Depois da Chuva

                         A Maria Guiomar 
Depois da chuva o Sol - a graça. 
Oh! a terra molhada iluminada! 
E os regos de água atravessando a praça 
- luz a fluir, num fluir imperceptível quase. 

Canta, contente, um pássaro qualquer. 
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça. 
O fundo é branco - cal fresquinha no casario da praça. 

Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar. 
Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado 
antes do Sol, não duvidava agora.) 

Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual 
às manhãs do princípio! 

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro. 
Grácil, tão grácil!... Pura imagem da Tarde... 
Flor levada nas águas, mansamente... 

(Fluía a luz, num fluir imperceptível quase...) 

Sebastião da Gama, in 'Pelo Sonho é que Vamos'

 

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